terça-feira, 26 de outubro de 2010

Terminei de ler o livro “Chão de Ferro” de autoria de Pedro da Silva Nava, mineiro nascido em Juiz de Fora em 5 de junho de 1903 e falecido em 13 de maio de 1984 no Rio de Janeiro.

Formou-se em Medicina na Universidade Federal de Minas Gerais em 1927 e participou da geração modernista de Belo Horizonte. Como escritor tornou-se o maior memorialista da literatura brasileira, autor de seis livros. O primeiro foi Baú de Ossos. Depois deste vieram ainda Balão Cativo, Chão de Ferro, Beira Mar, Galo das Trevas e, por último, O Círio Perfeito. Pedro Nava traçou nestas obras um completo painel da cultura brasileira no século XX, além dos costumes familiares e sua cultura popular.

Suas páginas sobre a medicina figuram como das maiores que se tenham escrito na literatura brasileira. A Belo Horizonte de seus anos vinte e o Rio Antigo passeiam em suas narrativas como uma força poética e uma profundidade observacional que muitas vezes se transformam em pura poesia, levando o leitor a um mundo mágico. No dizer de Carlos Drummond de Andrade: "… possuía essa capacidade meio demoníaca, meio angélica, de transformar em palavras o mundo feito de acontecimentos." Nava também possuía grande talento de pintor e só não o foi profissionalmente por opção.

Cometeu suicídio com um tiro na cabeça aos 80 anos, por razões desconhecidas, numa praça do bairro da Glória, após ter atendido, em seu apartamento, a um misterioso telefonema. Hoje, cogita-se que Nava vinha sendo chantageado por um garoto de programa, informação encoberta pela imprensa à época. Mas Ricardo Setti, em artigo publicado em Observatório da Imprensa, afirma que "Zuenir viu-se intensamente pressionado pelo meio cultural. De sua parte, considerava que o relato provinha de fonte pouco confiável. No final, passou as informações para a sede da revista em São Paulo, enviou a reportagem, contendo um curto parágrafo com a hipótese de chantagem sexual, mas manifestou vigorosamente sua oposição a que o parágrafo fosse publicado". Há de se considerar, no entanto, que Zuenir não colheu pessoalmente o relato do garoto de programa, mas, os jornalistas que o fizeram, considerando seu testemunho bastante verossímil.

Chão de Ferro percorre o tempo que Pedro era aluno do Colégio Pedro II no Rio e se situa pelos anos 1914--1918. É absolutamente impossível resumir qualquer trecho do livro tal a impressionante riqueza de detalhes com que Nava conta as histórias de seu tempo.

Dentre as milhares de narrativas que me encantaram, passo a descrever a feijoada completa semanal que Pedro participava na casa de seu Tio Heitor Modesto de Almeida, pessoa que muito o influenciou em toda sua vida.

Antes um parêntese: Segundo Pedro Nava a feijoada é prato legitimamente carioca, tendo sido inventado na Rua General Câmara, no famoso restaurante G.Lobo, cujo nome se dizia contraído em Globo.”Não se pode dizer que tenha sido uma criação espontânea,pois antes é a evolução venerável de pratos latinos como o cassoulet”francês que é um ragout de feijão branco com carne de ganso, de pato ou carneiro- que pede panela de grés- cassole- para ser preparado. Passando os Pirineus, é ainda com o feijão branco, com toucinho imaculado e com ebúrnea pele de porco que os castelhanos urdem suas judias-à-la bretagne.O nome mesmo mostra que o acepipe veio de fora e das Gálias. Seguindo o caminho das invasões, ele atravessa Tui, Ciudad Rodrigo,Badajos, Huelva- ganha Tavira, Elvas, Guarda e Valença de MInho para espalhar-se por Portugal na forma do guando cozido com carne de porco e paio.Mestre Lobo da Rua General Cãmara, tomou dessa muda européia, plantou e ela pegou aqui no tronco da feijoada-completa-do-hino-nacional.

Suas variantes brasileiras radicam principalmente em usar o feijão mais comum na região e em juntar ao porco outras carnes, miúdos e legumes encontradiços nos locais.. A falação é a mesma, só muda o sotaque. Pernambucana, cearense, piauiense, baiana são sobejamente conhecidas por Pedro Nava por conta dos laços parentescos, a baiana, por exemplo, pela tia de sua mulher, ele diz que tem a suntuosidade de sua rabada,dos anteparos de sua costela de vaca, do seu arco-íris de louro, açafrão,gengibre, cravo e coentro, cebola, salsalho e com seu fogo de artifício- pimenta malagueta curtida no gengibre”.

Sabe Pedro das delícias da feijoada mineira de sua mãe, da paulista de Dona Luisa, e das ecléticas Pernambuco - Minas, ou a do eixo Minas – Rio de Maria do Carmo e José Nabuco. De todas, ele diz que a mais incrível é a ortodoxa-católica-apostólica-romana, a carioca de Gê Lobo-Globo- sacramento este que comungou no cozinha insigne do Tio Heitor.

Vamos á descrição: “Ele próprio gostava de escolher o feijão mais igual, mais preto,mais no ponto, grãos do mesmo tamanho e do mesmo ônix. Ele mesmo é que comprava o lombo, a carne de peito, a lingüiça e os ingredientes de fumeiro com o que ia compor e orquestrar.A couve mais verde, a farinha mais seca e o torresmo mais escorregadio.Seu grande truque era cozinhar sem esmagar um só grão e depois de pronto,dividir em dois lotes. Tomava de dois terços e tirava seu caldo, peneirando. Um terço, esse sim! Era amassado, passado,livrado das cascas, apurado e esse caldo grosso é que ia ser novamente misturado aos grãos inteiros. Era assim que sua casa não se via a desonra da feijoada aguada.

Toda a carne fresca, a seca e a do fumeiro, era cozida no caldo mais ralo tirado da primeira porção. Só o lombo era feito sem contato, desobrigado de outro gosto senão o de sua natureza, o da vinha-d’alhos em que dormira e o das rodelas de limão que o guarneciam. Quando havia uma enfiada de feriados o Sr Modesto prferia preparar de véspera porque, sustentava, a feijoada dormida e entranhada era mais saborosa. Foi ao estro de sua mesa que pus em dia a melhor maneira de degustar a imensa iguaria.

Prato fundo, já se vê, de sopa! Nele se esmagam quatro a cinco pimentas-malaguetas entre verdes e maduras, frescas ou danadas no vinagre. Tiram-se-lhes carocinhos e cascas deixa-se só a linfa viva que é diluída num caldo de um limão. Esse corrosivo é espalhado em toda a extensão do prato e então farinha á vontade para deixar embeber. Retira-se o excesso que volta para a farinheira. Sobre a crosta que ficou, vai a primeira camada de feijão e mais uma de pouca farinha.. Edifica-se com superposições de couve,de farinha, de feijão, de farinha, das carnes, e gorduras e do respaldo mais espesso cobertura final de farinha.. Espera-se um pouco para os líquidos serem chupados, aspirados, mata-borrados e come-se sem misturar. Sobre o fundo musical e uniforme do feijão, sentem-se os graves do fumeiro, o maestoso do lombo, as harmonias do toucinho e os agudos, os álacres,os relâmpagos e os inesperados do subsolo da pimenta malagueta. E só. Um prato só. É de boa regra não repetir a feijoada completa,porque o bis-como o deboche- é reprovável.

A versatilidade do feijão é que permite a combinação das feijoadas regionais brasileiras a qualquer farinha. A grossa, farinha de pau do Maranhão. A fresca ou torrada. Simples ou com farofa de ovo ou de torresmo, ou dos dois. A farinha de milho seca, na sua pasta de angu, ou na pulverulencia úmida do cuzcuz de sal. Meu tio Modesto aconselhava a de mandioca simples, sem torrar ou então a de sal grosso, folha de cebola miúda, embalada na hora com água fervendo.. E fora disso, só couve. Isso de feijoada completa com arroz, laranja é heresia:o primeiro abranda e a segunda corta o gosto. E este deve ser preservado dentro da exuberância e do exagero da sua natureza barroca. Barroco-eis o termo!. Porque como obra de arte ( e levando em conta que”....Baudelaire avait bien dit que lês odeurs,lês coleurs e les sons se répondent) a Feijoada Completa Nacional está para o gosto, como os redondos de São Francisco de Assis em São João Del Rei, a imobilidade tumultuária dos profetas em Congonhas do Campo e a Ceia de Ataíde, no Colégio do Caraça, estão para os olhos. Ainda barroco e mais, orquestral e sinfônico, o rei dos pratos brasileiros está para a boca e a língua como, para o ouvido,- as ondulações, os flamboiantes, os deslumbramentos, os adejamentos, a ourivesaria de chuva e o plataresco dos mestres mineiros da música sacra e do Trio em Dó Maior para dois oboés e corninglês- Opus 87 de Ludwig van Beethoven.

Depois da feijoada, assim como depois da orgia, a carne é triste. Não a do prato. A nossa, pecadora. Patriótica ela serve tanto á Unidade Nacional como essa língua assim “dulcíssona e canora” que Portugal nos ofertou.

Obs: Pedro Nava exímio conhecedor da língua portuguesa, versado em francês e latim, nos brinda com expressões que só com auxílio do Aurélio conseguimos entender.

Ele cita André Guide( Journal-1942-1949) para subscrever sua declaração de amor á França, verdadeira pátria da cultura ocidental.

J’e me sens issu de la culture française:m’y rattache de toutes lês forces de mon coeur et de mon spirit. J’e ne puis m’ecarter de cette culture qu’em me perdant de vue e et qu’em cessant de me sentir moi-même”

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