quarta-feira, 27 de abril de 2011

O programa do Senhor


O Programa do Senhor


À frente da turba faminta, Jesus multiplicou os pães e os peixes, atendendo a necessidade dos circunstantes. O fenômeno maravilhara. O povo jazia entre o êxtase e o júbilo intraduzíveis.
Fora aquinhoado pôr um sinal do Céu, maior que os de Moisés e Josué.
Frêmito de admiração e assombro dominava a massa compacta.
Relacionavam-se, ali, pessoas procedentes das regiões mais diversas.
Além dos peregrinos, em grande número, que se adensavam habitualmente em torno do Senhor, buscando consolação e cura, mercadores da Indumeia, negociantes da Síria, soldados romanos e cameleiros do deserto ali se congregavam em multidão, na qual se destacavam as exclamações das mulheres e o choro das criancinhas.
O povo, convenientemente sentado na relva, recebia, com interjeições gratulatórias, o saboroso pão que resultara do milagre sublime.
Água pura em grandes bilhas era servida, após o substancioso repasto, pelas mãos robustas e felizes  dos apóstolos.
E Jesus, após renovar as promessas do Reino de Deus, de semblante melancólico e sereno contemplava os seguidores, da eminência  do monte.
Semelhava-se, realmente, a um príncipe, materializado, de súbito, na Terra, pela suavidade que lhe transparecia da fronte excelsa, tocada pelo vento que soprava, de leve...
Expressões de júbilo eram ouvidas, aqui e ali. Não fornecera Ele provas de inexcedível poder? Não era o maior de todos os profetas? Não seria o Libertador da raça escolhida?
Recolhiam os discípulos a sobra abundante do inesperado banquete, quando Malebel, espadaúdo assessor da justiça em Jerusalém, acercou-se do Mestre e clamou para a multidão haver encontrado o restaurador de Israel. Esclareceu que conviria receber-lhe as determinações, desde àquela hora inesquecível, e os ouvintes reergueram-se, à pressa, engrossando fileiras, ao redor do Nazareno.
Jesus em silêncio, esperou que alguém lhe dirigisse a palavra e, efetivamente Melebel não se fez de rogado.
Senhor, indagou exultante--és em verdade o arauto do novo Reino?
Sim - respondeu o Cristo sem titubear.
Em que alicerces será estabelecida a nova ordem?-- prosseguiu o oficial, dilatando o diálogo.
Em obrigações de trabalho para todos.!O interlocutor esfregou o sobrecenho com a mão direita, evidentemente inquieta, e continuou:
Instituir-se-á, porém, uma organização hierárquica?
Como não?- respondeu o Mestre sorrindo.
--Qual será a função dos melhores?
--Melhorar os piores, evidente.
--E a ocupação dos mais inteligentes?
--Instruir os ignorantes.
--Senhor, e os bons? Que farão eles no novo sistema?
--Ajudarão aos maus, a fim de que estes se façam igualmente bons.
--E o encargo dos ricos?
--Amparar os mais pobres para que se enriqueçam de recursos e de     conhecimentos.
--Mestre--tornou Melebel desapontado--, quem ditará semelhantes normas?
--O amor pelo sacrifício, que florescerá em obras de paz no caminho de todos.
--E quem fiscalizará o funcionamento do novo regime?
--A compreensão da responsabilidade de cada um de nós.
--Senhor, como tudo isto é estranho!- considerou o noviço, alarmado--desejarás dizer que o Reino diferente, prescindirá de exército, palácios, prisões, impostos e castigos?
--Sim - aclarou Jesus, abertamente-, dispensará tudo isto e reclamará o espírito de renuncia,de serviço, de humildade, de paciência, de fraternidade, de sinceridade, sobretudo, do amor de que somos credores, uns para com os outros, e a nossa vitória permanecerá muito mais na ação incessante do bem com o desprendimento da posse, na esfera de cada um, que nos próprios fundamentos da Justiça, até agora conhecidos no mundo.
Nesse instante, justamente quando os doentes e os aleijados, os pobres e os aflitos desciam da colina tomados de imenso júbilo, Melebel, o destacado funcionário de Jerusalém, exibindo terrível máscara de sarcasmo na fisionomia dantes respeitosa, voltou as costas para o Senhor, e, acompanhado pôr algumas centenas de pessoas bem situadas na vida, deu-se pressa em se retirar, proferindo palavras de insulto e zombaria...

O milagre dos pães fora rapidamente esquecido, dando a entender que a memória dificilmente funciona nos estômagos cheios, e, se Jesus não quis perder o contato com a multidão, naquela hora célebre, foi obrigado a descer também, rapidamente....

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